A luta das transexuais por identidade e cidadania

Diante dos muitos assassinatos de homossexuais e travestis que foram notícia no final de 2010 e no início deste ano, o Blog Esfera Pública fez uma entrevista com Carla Amaral, presidente do Transgrupo Marcela Prado, que trabalha na defesa dos direitos de travestis e transexuais.

Carla Amaral, durante o concurso Miss Curitiba Trans em 2010

Quando chegamos pela primeira vez ao Transgrupo, sediado juntamente com o grupo Dignidade, entidade de defesa dos direitos e da cidadania LGBT, não foi possível fazer a entrevista, pois a notícia do falecimento de uma amiga delas – uma pessoa querida pelo movimento e que levou consigo parte da história do Transgrupo Marcela Prado e dos concursos de Miss Trans em Curitiba – havia entristecido a todos e eles deveriam comparecer ao velório.

Em nossa próxima visita, não pudemos deixar de perguntar à Carla sobre o velório da amiga, que faleceu de causas naturais. Na resposta dela, percebemos que a entrevista já havia começado, já que a morte dessa amiga nos revelou muito sobre a discriminação e a falta de compreensão sofrida pelas transexuais. “Houve uma confusão no velório, discutimos com a família dela”, Carla respondeu. “Eles não a estavam velando como mulher. Ela era calva e usava peruca ou um lenço na cabeça quando fazia muito calor. Nós pedimos para a família que ao menos colocasse um lenço na cabeça dela. Depois de uma discussão, conseguimos colocar um lenço na cabeça dela e aí sim ela conseguiu partir em paz”.

BEP – O que aconteceu com a amiga de vocês, no final da vida, acontece com muitas transexuais?

Carla Amaral – Sim. Assim como ela, muitas vivenciam essa realidade quando ficam doentes, pois normalmente são abandonadas pelos parentes. O que acontece muitas vezes é que a família só se faz presente quando a pessoa tem bens a administrar, a deixar para os familiares em caso de morte. No caso da nossa amiga, a família só a entrou em contato com ela quando tinham uma procuração para administrar seus bens. Quando ela ficava doente, os amigos transexuais que a socorriam e iam visitá-la no hospital. Uma vez ela chegou a ficar alguns meses na casa de uma amiga, que ficou cuidando dela quando estava doente. Ela sofria muito de solidão, depressão e era usuária de drogas.

BEP – Pode-se dizer que a exclusão social da transexual começa na família?

Carla Amaral – Em 99% dos casos a exclusão começa na família, de alguma forma. Há desde casos em que a transexual é expulsa de casa até casos em que é tolerada, mas fica excluída das ações familiares. No entanto, atualmente há casos de aceitação. Há uma transexual feminina (pessoa que nasceu biologicamente homem mas assumiu o papel de mulher) aqui no grupo cuja mãe aceitou bem a mudança de gênero, porém o pai ainda não. Muitas vezes um dos pais aceita, o outro não.

BEP – Como foi a sua aceitação na família?

Carla Amaral – Quando era criança, eu queria ir para a escola como menina e gostava de brincar de bonecas junto com as outras meninas. Quando perceberam isso na escola, chamaram meus pais e eles me proibiram de brincar com as meninas. Então passei a ficar sozinha, brincava apenas com meus irmãos. Foi uma infância solitária.

Na família eu também era deixada de lado das ações familiares, tinha pouca interação com eles. Eu era desrespeitada em minha identidade trans – eles se recusavam a me aceitar como mulher. Saí de casa aos 21 anos.

Minha mãe dizia que não conseguia me ver como mulher. Levou cerca de cinco anos de luta constante, em que fui trabalhando essa questão com ela, até ela finalmente me aceitar como Carla.

BEP – Quando você escolheu seu nome?

Carla Amaral – Aos treze anos. Eu luto pela Carla desde os treze anos. Aos dezesseis anos comecei a fazer terapia hormonal, o processo transexualizador, que é feito pelo SUS por uma equipe multidisciplinar.

BEP – Você conseguiu trocar seu nome oficialmente?

Carla Amaral – Consegui, após um processo que durou dois anos. Troquei o prenome e o gênero.

BEP – Como é o processo para fazer a cirurgia de mudança de sexo?

Carla Amaral – Pelo SUS, é um processo bem demorado, que exige um acompanhamento por cerca de dois anos. As cirurgias de mudança de sexo foram aprovadas para ser feitas pelo SUS em 2008 e há apenas quatro centros médicos que a fazem no Brasil. A cirurgia particular é cara, mas muitos conseguem fazer, principalmente no exterior.

BEP – Voltando à questão da exclusão, como é a discriminação na escola e no trabalho?

Carla Amaral – A escola é o segundo lugar onde a exclusão acontece. Na hora de conseguir um emprego, o preconceito e a falta de capacitação acabam excluindo a transexual do mercado, que vê na prostituição a única saída para se sustentar. Infelizmente a prostituição toma 24 horas do tempo da pessoa, porque a exploração é grande. A transexual é explorada de várias formas, por exemplo, o valor do aluguel para as travestis é bem maior. A travesti gasta mais por causa do preconceito.

Além disso, é mais difícil para uma transexual alugar um imóvel. Um exemplo disso é uma amiga nossa que não conseguiu alugar um imóvel por causa do preconceito. Ela é professora concursada há anos, é reconhecida e respeitada em sua identidade trans por seus alunos, tem carteira assinada e tem como comprovar renda. Porém quando foi fechar negócio, na hora que o dono do imóvel a viu, desistiu de alugar o imóvel sem dar satisfação.

A maioria das travestis estuda pouco e não se capacita pois pensa que não adianta ficar anos estudando para depois ser discriminada no mercado.

BEP – O bullyng nas escolas também desestimula a travesti de estudar?

Carla Amaral – Sim, o bullyng é enorme. A transexual sofre muita discriminação por parte de colegas e professores. No entanto, hoje as coisas estão mudando. Estamos conseguindo conscientizar os professores para combater o preconceito. Há inclusive hoje uma recomendação da secretaria de educação de que os transexuais (tanto femininos como masculinos) possam usar sua identidade social.

Nas unidades de saúde pública também há uma recomendação de que as transexuais devem ser tratadas pelo gênero feminino.

BEP – Como é o transexual masculino (pessoas que nasceram biologicamente mulheres, mas assumem o papel de homem)?

Carla Amaral – O transexual masculino ainda é novo e está muito ligado ao lesbianismo. Há casos em que a pessoa pensava que era lésbica, quando na verdade era transexual masculino. Temos o caso aqui de um transexual masculino, que inclusive é casado com uma mulher, e a mudança de sexo nesse caso ficou tão perfeita que ninguém diz que ele é transexual.

BEP – Fale um pouco para nós sobre a Marcela Prado, que deu nome ao transgrupo e sobre o trabalho de vocês.

Carla Amaral – A Marcela Prado foi uma travesti militante, nordestina, que migrou para o sul. O trabalho dela era muito respeitado, ela tinha até cadeira na OAB. Faleceu em 2004, vitimada pela AIDS. Antes tínhamos um núcleo de travestis e transexuais dentro do grupo Dignidade, que após a morte da Marcela transformamos em ONG e já vem atuando há cerca de seis anos na defesa dos transexuais e na prevenção. A missão forte do grupo consiste na auto-afirmação da identidade de gênero. Temos parceria com as secretarias municipal e estadual de saúde e com o ministério da saúde. Dia 29 de janeiro é o Dia da Visibilidade Trans, data em que temos feito campanhas para passar informações sobre violência e doenças sexualmente transmissíveis.

BEP – As travestis ainda sofrem muito com as doenças sexualmente transmissíveis?

Carla Amaral – Sim, ainda sofrem muito com o HIV e as outras doenças sexualmente transmissíveis. Mas boa parte delas se contaminou no passado. Infelizmente as profissionais do sexo estão mais vulneráveis a essas doenças, por mais que se tenha prevenção, já que pessoas com um número elevado de relações sexuais correm mais risco.

BEP – Temos visto um grande número de notícias trazendo casos de agressão contra homossexuais no final de 2010. A que pé está a violência contra travestis e transexuais?

Carla Amaral – A violência moral ainda é a maior, principalmente a negação da identidade de gênero. A repressão por parte da polícia ainda é grande também. Houve uma época, em meados de 2008, 2009, que foi uma verdadeira chacina de travestis, que estavam sendo exterminados pelos traficantes, por causa de problemas relacionados a drogas. O problema é quanto à investigação e prevenção dessas mortes, pois quando um LGBT é agredido, a polícia não atende. Um exemplo disso é o caso ocorrido com o Igor, presidente do grupo Dignidade, que foi agredido por três pessoas, ao abraçar seu namorado na rua – uma demonstração leve de afeto. Eles foram espancados por um casal e um homem, e a polícia, ao atender ao chamado, ao invés de salvar os dois, agrediu-os ainda mais. As pessoas acham que pelo fato de sermos transexuais ou homossexuais, temos que aceitar que nos humilhem, que nos agridam.

Curitiba está entre as primeiras capitais no ranking da violência contra LGBT. Nossa cidade ainda é muito conservadora. No entanto, Curitiba é uma grande contradição. Apesar de ser uma das mais violentas, o número de pessoas na Parada da Diversidade aumenta a cada ano. Nessa última parada foram cerca de 150 mil pessoas. O que torna Curitiba mais contraditória ainda é que aqui os transexuais podem transitar livremente durante o dia, ao contrário do que acontece no resto do país, em que os transexuais só podem transitar durante a noite. A população LGBT é livre em Curitiba, aqui nós podemos ir ao Supermercado, ao Shopping. Porém ainda somos impedidas de usar o banheiro dos Shopping Centers. Apesar de tudo, Curitiba ainda é um dos melhores lugares para se viver.

Em 2005 nós fomos a um Encontro Nacional de Travestis e Transexuais em Goiânia. Quando estávamos no Hotel, fomos surpreendidas por policiais que nos avisaram que se saíssemos do hotel seríamos presas. Nós tivemos que acionar o Ministério Público para poder andar na rua. Nós recebemos inúmeras denúncias em Goiânia de travestis que sofreram violência, uma até chegou a ficar paraplégica, e além de tudo eram extorquidas pela polícia.

BEP – O que você acha da forma como o tema “casamento entre pessoas do mesmo sexo” foi levantado na última eleição para a presidência, em que líderes conservadores pressionaram os principais candidatos a aceitar as idéias conservadoras.

Carla Amaral – Os fundamentalistas estão revoltados com a população LGBT. Eles distorcem as coisas. Nós queremos apenas ter os mesmos direitos de pessoas heterossexuais, de deixar pensão e bens para o companheiro em caso de morte, etc.

Nós estamos tentando aprovar o projeto de lei 122, que torna crime a homofobia. Mas está parado no congresso desde 2003 e não conseguimos aprová-lo porque os fundamentalistas não permitem. A bancada evangélica é muito forte em Brasília. Os deputados conservadores fazem pressão nos demais e até chantagem para que o projeto contra a homofobia não seja aprovado. Eles dizem que o projeto pune os heterossexuais, o que não é verdade. O projeto apenas confere respeito e cidadania à população LGBT. Os fundamentalistas se sentem agredidos pelo projeto porque acham que tem o direito de ofender os homossexuais.

BEP – Como foi o governo Lula para a população LGBT?

Carla Amaral – A população LGBT foi acolhida pelo governo Lula, nós temos esperança na continuidade do seu governo, por meio do governo da Dilma. O presidente Lula convocou a Conferência Nacional LGBT, isso foi um feito inédito, a nível mundial. O movimento LGBT conseguiu mais conquistas no governo Lula que em qualquer outro, nós tínhamos liberdade de negociação. Nós temos esperança do governo da Dilma, que ela vai nos entender por ser mulher e ter sofrido com o machismo durante toda a eleição.

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3 Respostas para “A luta das transexuais por identidade e cidadania

  1. melissa!
    é o césar, do psol curitiba! dos tempos de fotosafari, heh!

    posso colocar essa entrevista no nosso blog?
    com os devidos créditos, é claro! :)

    abração!

  2. carla tenho muita dificuldade para receber respostas do sus para cirurgia de mudança de sexo! faz mais de dois anos q fiz minha inscrição e não tive resposta, por isso fui atraz, mas fui muito mal tratada… disseram q em curitiba eu deveria desistir pq aqui ninguen faz esse tipo de cirurugia! ai acabei meio q abrindo mão, mas não acho justo! o q devo fazer? sou mulher e só me falta esse detale! abraço

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